VCF MidWest 2025 – um brazuca num dos maiores eventos de retrocomputação do mundo

Quando decidi que viria para os EUA realizar um pós-doutorado, sabia que eu teria oportunidades de ter algumas experiências que não existem no Brasil ou em qualquer outro país do mundo. Coisas que são únicas daqui, que só se encontram por aqui. Sentado nas arquibancadas da saída da curva 4 no Indianapolis Motor Speedway, vi Alex Palou dominar e vencer a 109ª Indy 500. Quase tive um infarto na space mountain na Disney (e tive que lutar com meu filho de 8 anos pra ele entender que se fossemos no Tron o infarto se concretizaria!), passeei de Yoshi no Mario World da Universal e chorei com a apresentação do Ônibus Espacial Atlantis no Kennedy Space Center. Todos esses passeios são, por assim dizer, “genéricos”. Milhões de turistas vem anualmente aos EUA para visitar os parques de Orlando, e alguns milhares para a Indy 500. Havia um outro tipo de evento, um outro passeio, bem mais “de nicho” que eu estava interessado em fazer aqui nos EUA: participar de um evento de retrocomputação.

Ok, eventos de retrocomputação existem em vários lugares do mundo. Não é uma exclusividade norte americana. Mas aqui há dois diferenciais importantes. Primeiro, há muita gente! Muita gente interessada e envolvida de retrocomputação. Segundo, e talvez mais importante, há muita variedade de hardware. E por favor, não estou aqui fazendo o típico discurso de vira-latas, de que “tudo nos EUA é melhor que no resto do mundo”. Não é nada disso. É apenas uma questão de estatística. Praticamente tudo que é computador que já foi fabricado/comercializado no mundo, se encontra por aqui. O acesso que os EUA tiveram aos computadores nos anos 70/80 foi muito maior que qualquer outro país do mundo. E aqui também há uma cultura forte de colecionistas, de entusiastas de coisas antigas. Não apenas computadores e videogames, basta assistir um pouco da programação do History Channel pra se ter uma ideia.

Essa abundância de hardware antigo e de gente interessada nesse hardware, deu origem a instituições como a VCF – Vintage Computer Federation, que organiza anualmente vários eventos de retrocomputação, em diferentes pontos dos EUA. Além disso, há ainda inúmeros clubes e associações locais, que organizam eventos em todos os cantos do país. Pra minha sorte um dos maiores deles ocorre em Chicago, relativamente perto de onde eu moro, é o Festival de Computação Vintage do Meio Oeste ou simplesmente VCF MidWest. Organizada anualmente pelo Chicago Classic Computing, essa foi a sua 20ª edição, em um evento de 2 dias, 13 e 14 de setembro. Obviamente, não desperdicei a oportunidade. Embarquei em um avião em Indianapolis e menos de 1h depois estava em Chicago. Mais alguns minutos de Uber e eu estava em Schaumburg, subúrbio de Chicago, onde o evento seria realizado. O evento é totalmente gratuito para os visitantes, e expositores pagam em torno de US$ 100. Um preço bem acessível, já que a maioria vai acabar vendendo alguma coisa lá dentro e recuperando esse valor (e em geral algum lucro).

Eu acabei fazendo mais vídeos do que fotos lá dentro. Pretendo organizar tudo em um vídeo estilo “vlog” para o YouTube. Porém, eu sou melhor com texto que com vídeo. Por isso quero fazer esse relato mais detalhado sobre a minha experiência nesse fim de semana de VCF MidWest.

A primeira coisa que te choca ao entrar no evento é o seu tamanho. É um enorme espaço, dividido em vários corredores. A última lista publicada na página do evento, lista mais de 230 expositores. O mapa de distribuição das mesas dá uma ideia do tamanho do evento.

Em inglês há uma palavra que descreve muito bem a sensação de entrar no pavilhão pela primeira vez: “overwhelming“. O google traduz para o português como algo “muito pesado”, “intenso”, “esmagador”. E é isso mesmo, só que no bom sentido. É muita informação, toda de uma vez só. Pra todas as direções que se olha, você vê algo interessante, algo que te chama a atenção, algo que você quer ir conhecer. Eu cheguei a ficar meio “perdido” durante as primeiras horas no evento. Muita coisa pra ver, pra entender, pra aprender. Cheguei cedo, 9h da manhã de sábado e só saí de lá depois das 18h. A programação ia até as 22h, mas o cansaço me venceu. No domingo o evento terminou um pouco mais cedo, as 15h. Domingo é mais tranquilo, menos gente, e você já “acostumou” um pouco com a dinâmica da coisa. No domingo consegui passar com calma em algumas mesas selecionadas, conversar melhor com os expositores, rever o que me parecia mais interessante.

Além dos clássicos e velharias de todo tipo de hardware e software presentes, eventos como esse são uma excelente oportunidade para conhecer pessoas. Sejam anônimos como eu que compartilham do mesmo hobby ou nossos youtubers favoritos da comunidade de retrocomputação. Assim que entrei no evento vi o banner na mesa do Steve, do canal Mac84, e fui direto pra lá. O Mac84 é um canal fantástico que faz muitos reparos em hardwares antigos. Se você gosta de eletrônica, componentes, ferros de solda, vai adorar o canal. Eu conheci o Mac84 durante a pandemia, quando o Steve começou a fazer lives com horas de duração trocando capacitores explosivos de logic boards de Mac’s com mais de 30 anos! Uma verdadeira terapia! Comentei com ele que era minha primeira VCF e ele me recomendou “primeiro dá uma caminhada geral pelo evento, depois continua caminhando”. E foi o que eu fiz, nos dois dias de evento.

Junto do Steve estava o Jeff Geerling que também tem um canal super interessante, focado em tecnologia em geral e não necessariamente retro tech.

Em seguida foi a vez de bater um papo com o Clint, do LGR, que tem um canal maravilhoso mais focado em games.

Ao lado do LGR estava um outro youtuber, que tem um canal mais recente e que vem crescendo rapidamente. Hoje é meu canal preferido no YouTube. Action Retro e o grande Sean!

Pude bater um papo com o Sean, que se disse muito interessado no Brasil por causa do famoso Mac Unitron 512, o primeiro clone de Macintosh do mundo (ainda vou escrever sobre essa história)! Além disso, tive a oportunidade de interagir com o famoso (e agora altamente modificado, apenas a tela é original!) “Cursed Mac“. Também conheci a Kate (Srta. Fox) e o adorável Maccy do Macintosh Librarian.

Ainda cruzei com o Crazy Ken, do Computer Clan. Outro canal que recomendo no YouTube.

Algo muito interessante que percebi logo de início, é que não havia uma clara prevalência de uma marca, um modelo ou mesmo uma “era” da tecnologia sobre outra. Não haviam muito mais Mac’s que PC’s ou mais computadores dos anos 90 que dos 80, etc. Havia um pouco de tudo. Encontrei até gente fantasiada (é cosplay que se chama?), como prova essa foto minha com um iMac G3 que andava e falava!

Havia até um “quarto dos sonhos” de quem foi adolescente suficientemente rico no final dos anos 90 e começo de 2000, com decoração laranja devidamente alinhada com um iMac e um iBook G3 tangerine.

Para além de computadores, a VCF MidWest também estava repleta de games para todas as plataformas possíveis. Diversos consoles, de Atari 2600 e Coleco Vision a Magnavox Odissey. Sistemas de rádio e TV dos anos 50/60, teletipos, robôs, livros, manuais técnicos, drivers, etc. Posso afirmar que é impossível alguém ir a um evento como esse e não encontrar nada que o satisfaça, nada que seja de seu interesse. Algo você vai encontrar, por mais específico que seja seu “fetiche” em retrocomputação e tecnologia.

A diversidade na VCF MidWest é tão grande que eu encontrei, veja só você, um microscópio eletrônico de varredura! Uma máquina de 1984, restaurada e mantida por um grupo de entusiastas e que funciona de maneira perfeita, com sua tela de fósforo monocromática e seus controles analógicos. Estava lá, disponível pra quem quisesse “pilota-la” por alguns minutos, e obviamente não perdi a oportunidade.

Voltando aos computadores, a diversidade de hardware presente no evento era espetacular. Uma infinidade de marcas/modelos de computadores dos quais eu nunca tinha ouvido falar: Sol Terminal Computer, Heathkit, Poly88, Apricot, entre outros. Inclusive, você sabia que existiu um computador chamado Zorba?

Havia gente com ferramentas se disponibilizando para consertar hardware. Além disso, um projeto educacional chamado Build a Blinkie que visa ensinar e motivar uma cultura “maker” de colocar a mão na massa e montar coisas. Você compra um brinquedo ou item de decoração que vem na forma de um “kit”, um saquinho com PCB, LEDs, componentes, interruptores, e um manual com instruções. Há diferentes níveis de dificuldades. A ideia é que você monte o seu kit, em casa ou ali na VCF mesmo. Mais de uma dezena de estações de trabalho estavam preparadas a disposição de quem quisesse montar seu kit. Várias famílias estavam com as crianças empunhando ferros de solda montando seus brinquedos. Algo que nos remete ao início dos anos 80, quando computadores eram vendidos na forma de kits para serem montados pelo próprio usuário, em casa ou nos clubes de computação de escolas e universidades.

Mas de tudo que eu vi na VCF MidWest, houve uma coisa em especial. Na verdade duas. Duas máquinas que mexeram profundamente comigo e me deixaram emocionado. No livro que publiquei recentemente contando a história da Arm e dos processadores de arquitetura ARM (que você pode comprar aqui ou aqui), falo bastante sobre a Acorn Computers e seus primeiros computadores: o BBC Micro e o Electron. Eles foram importantíssimos, porque o primeiro levou a empresa ao sucesso e o segundo quase à falência. Pois para minha agradável surpresa ambos estavam em exposição em uma mesa decorada com uma enorme bandeira do Reino Unido. Um BBC Micro, versão britânica (raríssimo mesmo nos EUA) e um Electron.

Infelizmente o BBC Micro não estava funcionando. Algum problema de alimentação que o proprietário disse poder resolver facilmente em casa, mas não ali no evento. O Electron estava operacional, conectado a um monitor, rodando o Acorn Basic criado por Sophie Wilson. Pra mim foi o ponto alto do evento. Poder ver, tocar e interagir com aqueles dois computadores que eu jamais pensei que conseguiria ver ao vivo foi algo extremamente satisfatório e fez valer a pena a ida ao evento. Naquele momento, a VCF MidWest “se pagou” pra mim. A partir dali tudo era lucro.

Em resumo, foi um evento espetacular. Valeu cada centavo gasto em passagem aérea e hotel. Uma experiência única que vai ficar na memória por muito tempo. Acabei não falando aqui da “free pile“, uma parte do evento onde tudo que estiver nas mesas é gratuito pra quem quiser levar. Muitos gabinetes, componentes, livros. Tudo grátis. Acabei não comprando nada, menos pelos preços mas mais pelas limitações de viajar em avião. Se tivesse ido de carro tinha voltado com algumas coisas no porta-malas. Os preços, em geral, estavam bons. Um pouquinho mais caro que o que se encontra online, mas com a vantagem de que você sai com o produto na mão, sem envio. Algo normal em eventos desse tipo. Pra não voltar de mãos vazias, peguei na free pile um pente de memória de uma carcaça de iMac G5 abandonada e um CD lacrado na embalagem original de um software de astronomia para visualização do céu noturno. Só vou conseguir testar quando voltar pro Brasil nos meus mac’s com disco óptico. Além disso, adesivos, muitos adesivos dos meus canais prediletos no YouTube.

Vou organizar os vídeos que fiz e subir ao YouTube, assim você podem ter um gostinho de como é um evento da VCF. E agora estou começando a pensar em uma viagem pra Califórnia pra conhecer o Computer History Museum.

Update: saiu o vídeo!

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